...e eles viveram felizes para sempre. Seja lá quando isso for. Assim acaba essa história. Há pessoas que não se incomodam em saber o final dos livros que vão ler. Conheço algumas, inclusive, que vão direto para a última página, e só depois voltam à página inicial. Só depois de conhecer o final da história é que elas se sentem à vontade para começá-la, com calma. Há, no entanto, outro tipo de pessoa: aquela que foge dos finais de história como o diabo foge da cruz. Saber o final, para elas, estraga tudo. Elas evitam ler sinopses, críticas, ensaios, qualquer material escrito que possa conter spoilers. Tapam os ouvidos quando os outros falam do filme, e algumas até evitam sair com amigos que saibam o final do livro, com medo de que eles deixem escapar alguma coisa. Murilo, nosso protagonista, é um sujeito que não se encaixa em nenhum desses perfis. Porque nunca teve escolha.
Tudo o que começa, acaba. E Murilo sempre soube disso muito bem. Desde pequeno Murilo soube o final das coisas. Mas não pensem que ele sabia tudo o que ia acontecer, tintim por tintim. O pobre Murilo sabia apenas o final das coisas que já tinham começado, e no exato momento em que elas começavam. Não sabia nada sobre o meio, o miolo, tudo o que ocorria entre o começo e o final das coisas. Sua premonição consistia num simples flash do momento exato em que tudo acabaria.
Como isso é possível? Pois bem: imaginem o céu como uma repartição pública. Jorge é o funcionário bipolar que decide quando vai chover e quando vai fazer sol, Marta é uma senhora gordinha e chorosa que resolve os casos de amor desesperado; enfim, as tarefas são muito bem divididas entre funcionários, todos esmerados e pacientes. Quer dizer, quase todos. Werneck é um velho bêbado e turrão, responsável pela distribuição de talentos entre seres humanos. Sim, pois a cada ser humano é dado um talento desumano, inexplicável pela ciência. E Werneck é responsável por distribuí-los igualmente entre aqueles que estão para nascer. Como se trata de um funcionário relapso e inconseqüente, essa distribuição nos parece injusta e arbitrária. Enquanto alguns seres humanos tocam qualquer música de ouvido ou fazem milagres com uma bola nos pés, outros nascem com uma habilidade pífia, quase inútil. Tenho um tio que adivinha com 99% de certeza se uma grávida está esperando um menino ou uma menina. Era um dom interessante, até que ele ficou obsoleto: surgiu a ultra-sonografia. O mais triste é que alguns, talvez a maioria, passam a vida sem descobrir seu dom divino. Uma senhora que passou a vida sem sair de Bangu dificilmente descobrirá que tem uma habilidade sobrenatural para fazer bonecos de neve (Werneck, por vezes, é sádico.) Com Murilo, foi diferente: ele sempre soube muito bem qual era o seu dom.
Murilo teve sua primeira visão, terrível, quando nasceu. Na época ele vislumbrou sua morte, de infarto, quarenta anos depois, debruçado numa janela. Abriu o berreiro. E nunca se esqueceu da visão. Mais tarde, na infância, os filmes o entediavam, pois já nos créditos iniciais ele sabia que o casal viveria feliz para sempre. Os filmes de comédia não tinham mais graça e os de suspense não davam susto. Alguns amigos pararam de falar com ele quando ele ameaçou contar o final da última temporada de Lost.
Murilo tornou-se um sujeito tímido, introvertido. A finitude das coisas o assustava. Bastava que ele fizesse um novo amigo para que ele antevisse o momento em que eles romperiam, ou a morte de um dos dois. Beber era difícil, pois no primeiro gole Murilo visualizava a ressaca. E conhecer mulheres, idem. Um dia, Murilo se apaixonou à primeira vista. Ela era linda, loira e se chamava Mônica, disseram-lhe. Foi travar uma conversa. Imediatamente viu a mesma Mônica, horrorosa, assinando os papéis do divórcio. E isso aconteceu repetidas vezes: a alta e esguia Natália lhe dando um tiro no peito, a simpática Paula comprando passagens de ônibus só de ida para Friburgo. Assim, Murilo se afastou da companhia das pessoas, para não ter que começar nada que tivesse que acabar. E viveu um tempo longo em que nada começou.
Não foi um tempo infeliz. Até que a visão de sua morte, tão jovem, começou a assombrá-lo. Um homem de meia idade, morto por um infarto fulminante, na janela. Podia acontecer a qualquer momento. Certo dia, Murilo se olhou no espelho e viu que ele estava se transformando no homem da sua visão: engordou um pouco, perdeu cabelo...
Não demorou muito para que Murilo percebesse que era melhor viver as coisas sabendo do final delas do que não viver porcaria nenhuma. E redescobriu o prazer de viver o miolo das coisas. Brincava de tentar adivinhar como é que as coisas chegariam a ser o que ele já sabia que elas se tornariam. Percebeu o quão pouco importam o começo e o final: o barato está, pensou ele, em como é que uma coisa vai dar na outra. Fez novos amigos, conheceu mulheres, se apaixonou algumas vezes. E a história poderia acabar aqui, com nosso protagonista aprendendo a viver um dia de cada vez, encarando com tranquilidade a finitude das coisas. Mas não foi bem assim, como sabemos.
Certo dia, numa praça, ao lado de uma linda mulher, agora morena, resolveu puxa conversa. E disse Opa, como quem diz Oi. E parou por aí, espantado. Pois não viu final nenhum. Ficou aflito. Que que houve? disse ela. Não tem final, disse ele. O que? disse ela. Nossa história, disse ele. Não tem final. Mas precisa ter? disse ela. Não, não precisa, disse ele. Não precisa.
E eles viveram felizes para sempre. Seja lá quando isso for. E ele, precavido, evitou se debruçar nas janelas.
Tudo o que começa, acaba. E Murilo sempre soube disso muito bem. Desde pequeno Murilo soube o final das coisas. Mas não pensem que ele sabia tudo o que ia acontecer, tintim por tintim. O pobre Murilo sabia apenas o final das coisas que já tinham começado, e no exato momento em que elas começavam. Não sabia nada sobre o meio, o miolo, tudo o que ocorria entre o começo e o final das coisas. Sua premonição consistia num simples flash do momento exato em que tudo acabaria.
Como isso é possível? Pois bem: imaginem o céu como uma repartição pública. Jorge é o funcionário bipolar que decide quando vai chover e quando vai fazer sol, Marta é uma senhora gordinha e chorosa que resolve os casos de amor desesperado; enfim, as tarefas são muito bem divididas entre funcionários, todos esmerados e pacientes. Quer dizer, quase todos. Werneck é um velho bêbado e turrão, responsável pela distribuição de talentos entre seres humanos. Sim, pois a cada ser humano é dado um talento desumano, inexplicável pela ciência. E Werneck é responsável por distribuí-los igualmente entre aqueles que estão para nascer. Como se trata de um funcionário relapso e inconseqüente, essa distribuição nos parece injusta e arbitrária. Enquanto alguns seres humanos tocam qualquer música de ouvido ou fazem milagres com uma bola nos pés, outros nascem com uma habilidade pífia, quase inútil. Tenho um tio que adivinha com 99% de certeza se uma grávida está esperando um menino ou uma menina. Era um dom interessante, até que ele ficou obsoleto: surgiu a ultra-sonografia. O mais triste é que alguns, talvez a maioria, passam a vida sem descobrir seu dom divino. Uma senhora que passou a vida sem sair de Bangu dificilmente descobrirá que tem uma habilidade sobrenatural para fazer bonecos de neve (Werneck, por vezes, é sádico.) Com Murilo, foi diferente: ele sempre soube muito bem qual era o seu dom.
Murilo teve sua primeira visão, terrível, quando nasceu. Na época ele vislumbrou sua morte, de infarto, quarenta anos depois, debruçado numa janela. Abriu o berreiro. E nunca se esqueceu da visão. Mais tarde, na infância, os filmes o entediavam, pois já nos créditos iniciais ele sabia que o casal viveria feliz para sempre. Os filmes de comédia não tinham mais graça e os de suspense não davam susto. Alguns amigos pararam de falar com ele quando ele ameaçou contar o final da última temporada de Lost.
Murilo tornou-se um sujeito tímido, introvertido. A finitude das coisas o assustava. Bastava que ele fizesse um novo amigo para que ele antevisse o momento em que eles romperiam, ou a morte de um dos dois. Beber era difícil, pois no primeiro gole Murilo visualizava a ressaca. E conhecer mulheres, idem. Um dia, Murilo se apaixonou à primeira vista. Ela era linda, loira e se chamava Mônica, disseram-lhe. Foi travar uma conversa. Imediatamente viu a mesma Mônica, horrorosa, assinando os papéis do divórcio. E isso aconteceu repetidas vezes: a alta e esguia Natália lhe dando um tiro no peito, a simpática Paula comprando passagens de ônibus só de ida para Friburgo. Assim, Murilo se afastou da companhia das pessoas, para não ter que começar nada que tivesse que acabar. E viveu um tempo longo em que nada começou.
Não foi um tempo infeliz. Até que a visão de sua morte, tão jovem, começou a assombrá-lo. Um homem de meia idade, morto por um infarto fulminante, na janela. Podia acontecer a qualquer momento. Certo dia, Murilo se olhou no espelho e viu que ele estava se transformando no homem da sua visão: engordou um pouco, perdeu cabelo...
Não demorou muito para que Murilo percebesse que era melhor viver as coisas sabendo do final delas do que não viver porcaria nenhuma. E redescobriu o prazer de viver o miolo das coisas. Brincava de tentar adivinhar como é que as coisas chegariam a ser o que ele já sabia que elas se tornariam. Percebeu o quão pouco importam o começo e o final: o barato está, pensou ele, em como é que uma coisa vai dar na outra. Fez novos amigos, conheceu mulheres, se apaixonou algumas vezes. E a história poderia acabar aqui, com nosso protagonista aprendendo a viver um dia de cada vez, encarando com tranquilidade a finitude das coisas. Mas não foi bem assim, como sabemos.
Certo dia, numa praça, ao lado de uma linda mulher, agora morena, resolveu puxa conversa. E disse Opa, como quem diz Oi. E parou por aí, espantado. Pois não viu final nenhum. Ficou aflito. Que que houve? disse ela. Não tem final, disse ele. O que? disse ela. Nossa história, disse ele. Não tem final. Mas precisa ter? disse ela. Não, não precisa, disse ele. Não precisa.
E eles viveram felizes para sempre. Seja lá quando isso for. E ele, precavido, evitou se debruçar nas janelas.

14 comentários:
ahaha muito bom
bom conto!
Virginia
Gostei muito. Fiquei tão absorto pelo drama de Murilo que esqueci que eu já sabia o final e, mesmo o tendo lido no início do texto, acabei me surpreendendo na última frase.
Adorei !
Vi nas atualizações do twitter e resolvi passar aqui para conferir o blog. E a própria estética do blog me surpreendeu pela criatividade.
Mas o que realmente me surpreendeu foi o texto. Muito bem escrito!
Gostoso de ler... e muito inteligente.
Gostei pra valer!
Voltarei mais vezes.
Esse texto ficou MUITO bom;)
adorei o texto!!!
bjs
Caraa, adorei a história, me prendeu totalmente! nem sabia da existencia do blog, e agora, checo todo dia! parabéns, gregorio =]
p.s.:adorei o poema Os Invasores. =]
Sensacional!
:D
Excelente!
Realmente muito bom o texto !
Não acho seu livro em lugar nenhum, poxaa :(
Continue escrevendo contos tão bons quanto esse! Adorei!
Parabéns texto lindo *-*
me fez perceber o quanto estou fazendo meu futuro ser feliz sem aproveitar o meu presente.
obrigada pelo puxão de orelha xD
Excelente.
Fiquei realmente impressionada com o seu talento pra escrever.
Ameei <3
"Fiquei tão absorto pelo drama de Murilo que esqueci que eu já sabia o final e, mesmo o tendo lido no início do texto, acabei me surpreendendo na última frase." [2]
Arrepiou aqui.
Muito bom *-*
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