13.3.09
Martha
Conheci Martha na bilheteria de um cinema. Não. Foi no caixa de uma livraria. Não. Foi na fila de um banheiro. Isso. Foi na fila de um banheiro. Eu entrava no banheiro e ela já lavava as mãos. Não. Foi o contrário: eu lavava as mãos e ela entrava no banheiro. Não. Quando eu entrei no banheiro, Martha estava lá, sentada. Não. Eu estava no banheiro quando. Não. Talvez fosse realmente na bilheteria de um cinema. A verdade é que eu não lembro da primeira vez que eu vi Martha. Mas lembro da segunda.
A segunda vez que eu vi Martha foi deitada sobre o meio-fio, com uma ferida no rosto. Desci do táxi (esqueci de falar, eu estava num táxi). Perguntei: Tudo bem com você? e ela: Adivinha. e eu: Não. e ela: Não o que? e eu: Não está tudo bem. e ela: Era uma pergunta retórica. Me leva pra casa? e eu: Onde você mora? e ela: Para casa que eu digo é para a sua casa. E eu só me lembro até aí. O resto foi Martha morando na minha casa, esperando a ferida cicatrizar. Quando eu ia trabalhar, ela dizia: Traz iogurte? Nunca perguntei o porquê da ferida. Nem deixei de comprar iogurte.
A segunda vez que eu vi Martha foi deitada sobre o meio-fio, com uma ferida no rosto. Desci do táxi (esqueci de falar, eu estava num táxi). Perguntei: Tudo bem com você? e ela: Adivinha. e eu: Não. e ela: Não o que? e eu: Não está tudo bem. e ela: Era uma pergunta retórica. Me leva pra casa? e eu: Onde você mora? e ela: Para casa que eu digo é para a sua casa. E eu só me lembro até aí. O resto foi Martha morando na minha casa, esperando a ferida cicatrizar. Quando eu ia trabalhar, ela dizia: Traz iogurte? Nunca perguntei o porquê da ferida. Nem deixei de comprar iogurte.
em
12:08 AM
10.3.09
Mais Sofia.
Na Marquês de São Vivente eis que surge um rosto particularmente conhecido. É Sofia. Em carne e osso, e não mais feita de sonho, que é a matéria das mulheres etéreas. Não tem os olhos cinzas, não tem a boca tão vermelha, mas é Sofia (talvez em meu sonho ela use batom e lentes coloridas). Ela vira à direita na rua das Acácias e eu sigo atrás, a dez metros, como nos filmes. Já não tenho mais certeza se é Sofia. Crio um jogo comigo mesmo: se ela subir a Major Rubens Vaz, não é Sofia; se virar à direita na rua dos Oitis, é Sofia. Ela pára na encruzilhada. Hesita. Vira à direita. É Sofia.
em
6:58 PM
16.2.09
Sofia
Nos meus sonhos era sempre uma atriz que fazia o papel de Martha. Era como Martha mas longilínea, o queixo pronunciado, a boca mais vermelha e os olhos talvez cinzas. Era Martha, isso não era questionado no sonho. Mas, pensando bem, era uma atriz interpretando Martha. Não era, no entanto, uma atriz conhecida. Talvez fizesse teatro. Talvez morasse com dois gatos no jardim botânico. Talvez nem fosse atriz, talvez Martha fosse seu primeiro papel, e o meu sonho fosse o seu primeiro trabalho (já que eu não requeria sequer registro profissional). Talvez fosse garçonete. Mas era uma boa atriz. Nunca soube seu nome. Para efeito narrativo (pois é preciso que as pessoas tenham nome), a chamaremos de Sofia. Isto é: até um certo momento da história. Nesse momento, descobrirei que o seu nome não é esse, e a partir de então ela será chamada pelo seu nome real. Por enquanto, Sofia nos convém perfeitamente.
em
9:05 PM
14.2.09
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