Sempre fui muito distraído e durante toda a minha vida esquecer coisas fez parte da minha rotina. Ao me lembrarem de algo que eu havia esquecido, acrescentavam, acreditando estar fazendo uma piada inédita: Esse daí só não esquece a cabeça porque ela está grudada no pescoço. Eu tinha ódio dos que lembravam e mais ainda de suas piadinhas de praxe. Não exatamente porque lembravam, mas pelo desprezo com que viam o esquecimento, associando-o à burrice e à imaturidade. Ser adulto, diziam, é lembrar de seus pertences, de seus compromissos, de suas responsabilidades. Durante muito tempo acreditei.
Somente hoje é que começo a perceber o esquecimento mais como uma opção do que como uma limitação. A começar porque todo esquecimento é seletivo: tudo o que é esquecido é de uma certa forma dispensável ou indesejado. Nunca me esqueci de comer ou de dormir, ou do prazer de se dar um mergulho no verão. No entanto já me esqueci inúmeras vezes de reuniões, de datas que nada significavam para mim ou de fórmulas de química que de nada me serviriam. A mente do esquecido seleciona as informações de modo inteligente, separando o joio do trigo, o essencial do supérfluo. Se já esqueci minha mochila em inúmeros lugares, é porque eu não tinha real necessidade de estar com ela, assim como eu só esqueci guarda-chuvas depois que já tinha parado de chover.
No mais, a felicidade pressupõe um certo esquecimento. O mundo é tão cheio de desgraças que o único modo de conviver com elas é esquecendo-as. É impossível ser feliz enquanto lembrarmos que pessoas estão sendo violentadas, torturadas e assassinadas nesse exato momento. Da mesma maneira, a única forma sadia de se lidar com a nossa própria morte e com o fato de que ela pode chegar a qualquer momento é esquecendo-a.
Assim, a felicidade pode ser compreendida como um esquecimento, mesmo que temporário, do passado e do futuro em prol do aproveitamento de um momento presente, ou mais especificamente de um lugar específico no momento presente. Não estou dizendo simplesmente que podemos ser desmemoriados e felizes, e sim que para sermos felizes temos que ser desmemoriados. Pois fora do esquecimento não há felicidade.
29.11.06
27.11.06
abrir o olho de cada prédio:
ouvir o grito das poças e o
choro dos postes. dar a ver
a cada carro sua consciência
de carro, adormecida. viver
um pouco como viveria um
meio-fio, um caco de vidro,
uma placa de trânsito e ser
um pouco como eles, nem
que seja por uma fração de
segundo. deixa-los habitar
sua alma e passar a ser um
pouco sinal vermelho, um
pouco pedestre, um pouco
fusca que perde o freio e se espatifa em um muro qualquer.
ouvir o grito das poças e o
choro dos postes. dar a ver
a cada carro sua consciência
de carro, adormecida. viver
um pouco como viveria um
meio-fio, um caco de vidro,
uma placa de trânsito e ser
um pouco como eles, nem
que seja por uma fração de
segundo. deixa-los habitar
sua alma e passar a ser um
pouco sinal vermelho, um
pouco pedestre, um pouco
fusca que perde o freio e se espatifa em um muro qualquer.
em
11:34 AM
24.11.06
"eu sou a beira do mundo"

Desgovernar-se: mergulhar a fundo
na própria ilucidez, deslucidando
de deus os trocadilos. Descobrir-se
pérola entre porcos: corpos entre
um mar sangüino de desesperança.
Há nervos entre a pele e o sangue e os ossos:
descontrole remoto de um sistema
carnívoro-nervoso, só sucata.
Estamirar-se: autoperceber-se
para sempre à deriva de qualquer
caminho. Fartos dessa eterna farta
desse deus sujo que nos criou sujos
e conscientes de nos despertencer,
é ser e estar no mundo sempre à beira.
em
11:51 AM
22.11.06
all night long

Cansado de ouvir os mesmos acordes dissonantes repetidos ad eternum, saio pela rua da constituição dancing in the dark uma melodia inexistente. Tropeço em mendigos, fios e meio-fios de uma praça totalmente tiradentes, caio de cara na lua refletida numa poça rala, ergo-me claudicante no negrume dessa noite-breu e deito meu corpo sobre um poste vertical demais, esperando all night long um ônibus que tá na cara que não vai passar que tá na cara que não vai passar que. Passou, filho da puta, rápido demais para minha retina cansada dessa rotina de steinhaeger com cerveja.
em
4:31 PM
19.11.06
Tudo já foi dito
Todos os livros falam de outros livros, todos os sons de outros sons e todos os sons de outros livros, cores e cheiros. Não se pode dizer hoje sinto saudades sem evocar – mesmo sem conhecer – a saudade que Casimiro sentiu da aurora da sua vida ou tudo aquilo que fica daquilo que não ficou ou o ronco barulhento do meu carro e os erros do meu português ruim. Há em toda saudade traços indeléveis da saudade de Ronsard, de Cecília, de Roberto, de Caio, de Cole, de Gonçalves, de Florbela e de cada um que já cantou sua saudade em altos brados. Esse texto mesmo está permeado de outros textos e tentar descobrir o que o permeia é cair numa cilada pois o que o permeia foi permeado por textos já antes permeados e se seguirmos adiante nessa genealogia textual descobriremos que ela é viciosa pois eu também estou a influenciar os textos que cito pois eles passarão a ser para você leitor um texto por mim citado. Assim, mesmo sendo posterior a eles, influencio meus predecessores – Borges principalmente, que já disse tudo isso muito melhor, e antes, que eu. E pode ser que já o tivessem dito antes dele. Pois tudo já foi dito.
Inclusive que tudo já foi dito.
Inclusive que tudo já foi dito.
em
8:52 PM
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