a planta dos seus pés
sobre o peito dos meus
pés e a noite inteira
para dançar sobre o carpete
11.7.08
cleing
Entrei no bar e o pianista tava tocando aquela música, como é mesmo o nome daquela merda de música, aquele jazzinho vagaba, the stars, starring at the, não, como é mesmo o nome? bom, tirei do bolso a arma e tôu no pianista e ele cleing no piano e todo o mundo óóó e eu fui logo tlôut em todo o mundo e tlôu e tlôu, três tiros, fora o pianista, atirei no menino porque ele tinha emprestado dinheiro pra marlene, no velho que era cupincha do menino que tinha emprestado dinheiro pra marlene, e na marlene, é claro, que morreu sujando de sangue e de mijo o tapete do bar, aí eu que não sou escroto deixei mil reais no balcão do bar e disse é pra comprar outro tapete, e saí daquela merda batendo a porta que fez cling clingue e ah, lembrei, stardust, é o nome da música.
em
3:50 AM
4.7.08
querer
Para zarpar é preciso zarpar:
é preciso isolar do cais à força
o barco, mesmo que não haja tempo
mesmo que não haja mar, é preciso
zarpar para saber o que é zarpar,
é preciso vencer o que não quer
o mar e quer temer o que é perigo
do mar pois dos perigos que há no mar
o perigo maior mora no cais
por isso, quando tudo começar
por pior que o percurso possa ser
o pior já passou pois o pior
era não começar, pois o pior
jeito de naufragar é não partir
é preciso isolar do cais à força
o barco, mesmo que não haja tempo
mesmo que não haja mar, é preciso
zarpar para saber o que é zarpar,
é preciso vencer o que não quer
o mar e quer temer o que é perigo
do mar pois dos perigos que há no mar
o perigo maior mora no cais
por isso, quando tudo começar
por pior que o percurso possa ser
o pior já passou pois o pior
era não começar, pois o pior
jeito de naufragar é não partir
em
8:07 PM
28.6.08
Soneto Prático II
d'aprés Miguel Torga
Em meio às invasões bárbaras, eu
recomendo passar adiante o cetro.
Quando sentimos algo que morreu,
não há remédio, bisturi, eletro-
choque, capaz de reativar aquilo
que já foi vivo em nós e faleceu.
(Por vezes é melhor dizer tranquilo
aos bárbaros que o reino é todo seu).
Pós-mortem sempre nasce a tentativa
fadada a revelar-se malfadada
de crer que o que está morto reaviva
se aplicarmos uns golpes de pancada.
Quando a boca está seca e sem saliva
de nada servirá água salgada.
Em meio às invasões bárbaras, eu
recomendo passar adiante o cetro.
Quando sentimos algo que morreu,
não há remédio, bisturi, eletro-
choque, capaz de reativar aquilo
que já foi vivo em nós e faleceu.
(Por vezes é melhor dizer tranquilo
aos bárbaros que o reino é todo seu).
Pós-mortem sempre nasce a tentativa
fadada a revelar-se malfadada
de crer que o que está morto reaviva
se aplicarmos uns golpes de pancada.
Quando a boca está seca e sem saliva
de nada servirá água salgada.
em
8:59 PM
8.6.08
expressos
a grade e os degraus de cada rua
sem suas costas ao redor
das quais eu passaria o braço
caso você
não estivesse num bairro qualquer de São Paulo
tomando um chope e falando sobre
lei rouanet buenos aires deleuze dois mil e quarenta e seis
paulistas e pastéis de porre
japonesas e dreadlocks e cartunistas quem sabe o Angeli
deitado sobre os próprios braços numa mesa ao fundo
e um senhor de terno
que vem aqui toda noite
sempre na mesma mesa
às quatro e meia da manhã
e quilômetros e quilômetros
de distância
sou só mais um entre
os seis milhões de gatos pingados
desta cidade em que já não tem a menor graça
assistir ao novo filme do wong kar wai
sem suas costas ao redor
das quais eu passaria o braço
caso você
não estivesse num bairro qualquer de São Paulo
tomando um chope e falando sobre
lei rouanet buenos aires deleuze dois mil e quarenta e seis
paulistas e pastéis de porre
japonesas e dreadlocks e cartunistas quem sabe o Angeli
deitado sobre os próprios braços numa mesa ao fundo
e um senhor de terno
que vem aqui toda noite
sempre na mesma mesa
às quatro e meia da manhã
e quilômetros e quilômetros
de distância
sou só mais um entre
os seis milhões de gatos pingados
desta cidade em que já não tem a menor graça
assistir ao novo filme do wong kar wai
em
3:20 PM
Assinar:
Comentários (Atom)
