Rua Caio Mario

5.4.08

Superfície ovalada de madeira
opaca, bem polida e atravessada
por uma fenda diagonal que deixa
entrever o verde que a casca esconde

e que se deve desbravar com dedos
e dentes que rompam a rigidez
de mogno que a membrana bege traz
para proteger, como o ovo o pinto,

a tenra carne do seu interior,
dando aos dentes e dedos o prazer
de lutar pelo que se quer comer

e sentir na semente oleaginosa
o orgulho por mais uma conquista.
O sabor do pistache está na casca.

5.3.08

no meio da onda do doce
achei que eu fosse morrer
e pensei
que se morrer fosse aquilo
eu queria morrer todo dia muito

27.12.07

Sobre construir janelas

Erguer antes de tudo uma parede –
a parede no caso é importantíssima,
pois as janelas só existem sobre
paredes, as janelas sobre nada

são também nada e não são sequer vistas.
Em seguida quebrá-la até fazer
nela um grande buraco, não maior
que a parede, pois precisamos vê-la,

nem menor que seus braços – as janelas
sobre as quais não se pode debruçar
não são janelas, são buracos. Pronto.

Ou quase: agora basta construir
um mundo do outro lado da parede,
para que possas vê-lo, emoldurado.

18.12.07

o signo que fica

poesia é quando
o significante
significa mais
que o significado

10.12.07

o avô materno

meu avô usava meias nos dedos
para escrever (e era tão distraído
que devia usar luvas nos pés) e
quando íamos às castanheiras
ele era uma luz no andar de cima
que só se apagava para tomar um copo
de cerveja na cabeceira da mesa
com o dedo mindinho sempre em riste
sua voz tinha um sotaque não sei de onde
mas parecia ser do seu quartinho
quando falava das pessauas e eu nunca entendi
porque é que ele falava pessauas e porque
é que ele preferia escrever sobre elas no quartinho
a conversar com elas na lareira