Rua Caio Mario

29.9.08

o meio de todas as coisas

entre o fim do começo e o começo
do fim toda coisa tem uma massa
inerte feito ponte pela qual
passamos distraídos – ou não:
os astecas sentiam chegar o exato
momento do meio da vida – o meio do meio
da vida, o momento em que o que já vivemos
é exatamente igual ao que ainda não vivemos
– e nesse momento preciso o mais comum
dos astecas sentia uma súbita e inexplicável
vontade de tomar um trem
mas como ainda não o tinham inventado
ele acabava por entristecer-se
(daí a tristeza, essa vontade de algo
que ainda não inventaram)

16 comentários:

Pavitra disse...


no meio
há um momento em que tudo é tão inexato...
o meio - essa paisagem contrastante
entre o que pode ser quase começo e quase fim
em sua aparente imutabilidade...

e o meio come a gente por dentro.

se não é aquela idéia de destruir o sentido das pontes
não sei, não...

mas dá pra seguir a trilha
nos trilhos do inexistente
trem fumaça de cardamomo da sua poesia...

Cosmunicando disse...

meio que fora dos trilhos, não há meios de finalizar o entendimento de todas essas coisas da tristeza... porque metade de mim trem bala.

Amendoa disse...

"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência - A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!".
A Gaia Ciencia- Nietzsche

Patrícia Angélica disse...

(daí a tristeza, essa vontade de algo
que ainda não inventaram) - DEFINIÇÃO MAIS PERFEITA Q JÁ VI DO Q É A TRISTEZA...

o meio de todas as coisas... nossa... isso daria uma tese filosófica... e poética... claro!!!!!!!

A Menina Sem Século disse...

despertou uma vertigem..

e faço coro com a moça de cima:
q definição!
esse pacto intenso com a insatisfação, um estado constante de se querer algo que nem existe é então o eterno prazer da tristeza....?

Manu Cantuária disse...

conheço bem essa tristeza asteca

Karin disse...

que coisa linda, gregorio...

menta disse...

argamassa no meio da vida
tristeza inerte entre
as paredes.

Anônimo disse...

é fato que os astecas sentiam chegar o meio do meio da vida deles? dava um bom filme isso...

senhorita feliciana disse...

muito muito foda!
eu podia inventar palavras e acabar com toda essa tristeza nossa, mas qual a graça de procurar o meio do meio, a vida... e perder palavras tão bonitas!?
lind.

Duvivier disse...

"Essa vontade de algo que ainda nao inventaram"Que bonito querido!Nessa frase vc ve a tristeza como nostalgia de um futuro que ainda vai chegar. Eh optimista, como uma reminiscencia Platonica.
Adorei ver vc e conversar com voce em meio aqueles calices de champagne, no ambiente tao artistico de teu pai. Um privilegio pra quem vai dos US pra ficar 4 dias no Rio. Assim que ler mais dos teus poemas te escrevo. Parabens!

Paulo Henrique Motta disse...

é, sempre há um meio para tudo...

adicionei vc aos meus links.

um abraço,

PH

Ticiana Flarys disse...

gostei muito!

o meio pode ser o mais morno de todos...sem a excitação do início, nem a realização, ou a resposta, ou a certeza do final...

claire disse...

tristeza senhora sem hora amarga toda a falta que nos (i)move. são as horas de domingo e das noites de insônia.

- Marechal Carleto - disse...

a terceira margem do tempo (...)

Cris Chevriet disse...

essa foi sensacional, bateu fundo...demais, me emociona, é tão bom que a gente não sabe se fica alegre o fica triste!!!